segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Reflexões sobre o celular e a vida (sim, é isso mesmo!)

Saí para almoçar, como de costume, e me deparei com uma mocinha recostada no portão de um dos casarões antigos que circundam a empresa. Soluçava muito; tinha o rosto muito vermelho e empunhava um aparelho de telefone celular. "Você quer desligar", chorava ela, ainda mais alto e desesperadamente. Nessas horas, tenho certa vontade de parar e perguntar, acodir, dizer algo - maldita empatia que me faz pensar nos momentos que já quis que algum ser humano compreendesse minha dor quanto me sentia tão solitária. Mas felizmente a luz do bom senso sempre recai sobre mim e desisto da minha compaixão, para a alegria do meu lado sensato, que não quer ser chamado de intrometido tampouco de louco.

A imagem dos dois braços tatuados, aliados ao coturno preto, apesar do calor e da saia jeans, contrastavam fortemente com o frágil pranto a que ela se entregara. Saí dali refletindo que a chamada que recebera (ou fizera) teria interrompido seu dia. Interrompera o caminho, o dia, o trajeto, as próximas horas. Torci para que ela não estive indo para o trabalho; o prejuízo seria maior. Bons eram os tempos em que se podia esperar a hora de chegar em casa para ter uma briga ou receber uma má notícia; assim como eram bons os tempos em que se podia romper sem nunca mais ter notícia do ex-vínculo. Especulei sobre o uso da mochila que ela carregava. Que ela fosse ao cursinho, à faculdade, à escola; qualquer lugar onde os momentos que se seguiam fossem ligeiramente mais confortáveis.

A questão é que agora somos localizáveis, acessíveis, encontráveis o tempo todo, mesmo que não desejemos. Estar offline significa a perda de negócios, de relacionamentos, de amigos, de namoros, de informações - mesmo que não as mais importantes. Mas é essa mesma acessibilidade - ou a exigência por ela - que nos afasta, que nos descompõe, que desvaloriza o equilíbrio e a reflexão. Que reforça a impulsividade, a aparência e a impessoalidade. Que exige a presença mas que valoriza a ausência também. O fim da picada começou com o sexo por telefone (e depois cibernético) e termina na discussão: "Posso terminar meu namoro por email?"

É mais conveniente exigir a atenção do outro a todo momento, a todo lugar, sob qualquer circunstância do que lidar com a própria insegurança; assim como é mais fácil eximir-se da responsabilidade de olhar olhos nos olhos para dizer as incompatibilidades e as dores. E nada substitui o sentir, o intuir e o perceber. A linguagem corporal, o piscar dos olhos, o tom de voz, o toque. Evitar o fardo e o enfretamento, assim como dispensar a reflexão silenciosa.

E por que minha zanga recai sobre os aparelhos de telefone celular? Porque são os mais portáteis dos conectores e o mais online de todos, em todas as redes. Permanecem colados ao corpo, extensões de nós. Eu mesma já cometi a atrocidade de voltar para casa para buscá-lo - e mais de uma vez. Ele impera que encarnemos todos os papéis de uma vez só: somos, ao mesmo toque do celular, o profissional, o amante, o filho e o amigo. E é remota a chance de negar qualquer atuação.



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